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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

num ímpeto colossal (20/20)

E, num último insight, eu ainda suspeitaria de uma boa dose de bipolaridade naquele cara que, num ímpeto colossal, saiu criando o mundo em apenas seis dias de trabalho. E depoois, num dia ruim, deprimido com o resultado, mandou o dilúvio pra acabar com tudo. Mas aí veio o Noé, provavelmente outro bipolar, com aquela ideia de criar uma arca gigane e... bem, vocês conhecem a história.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 235)

... estou muito feliz com elas (19/20)

A maior parte da vida, os medicamentos nos controlam, nos equilibram. Períodos relativamente curtos em crise se contrapõem a vários anos de vida normal, pelo menos no meu caso. O que não sei ao certo é se características próprias da minha personalidade são herdadas da bipolaridade. Se isso acontece, só posso dizer que estou muito feliz com elas. Não posso reclamar do desenvolvimento da minha vida pessoal,  familiar ou profissional.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 234)

... não posso ter medo da minha doença (18/20)

Moral da história: como bipolar, não posso ter medo de remédio; muito pelo contrário. Também não posso ter medo da minha doença, pois, quando medicado, não sinto qualquer distúrbio além dessa ânsia desgraçada para criar coisas - qualquer coisa que ainda não exista.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 215)

não posso negligenciar o sono (17/20)

... minha vida mudou completamente com a introdução do lítio na minha dieta. [...] Uma vez ou outra negligenciei o tratamento e puff: : a crise veio certeira. Foi um longo aprendizado até adquirir a disciplina necessária [...] mas a resistencia não é incomum para quem tem alguns preconceitos contra remédios em geral... E também não posso negligenciar o sono.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 214)

...já conhecíamos todos os sintomas (16/20)

... mas quando chegava a madrugada, os caras me acordavam de quatro em  quatro horas, e a minha bipolaridade começou a dar sinais de vida. Eu ficava irritado e não dormia. Tanto eu como a minha mulher já conhecíamos todos os sintomas. [...] foi chamado, aumentou um pouco a tarja preta e pronto, voltei a dormir e a passar bem de noite e de dia.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 210)

é a inquietação (15/20)

Uma das caracteristicas da mente bipolar é a inquietação. A criatividade é ululante, mas nem sempre factível. Tem muito de ilusório na minha cabeça. [...] Analisando com calma, cheguei à conclusão de que  ora estava adiante do meu tempo, ora não encontrava colaboração necessária, ora estava iludido pela minha autoavaliação de genialidade. Mesmo assim, conseguia entusiasmar alguns amigos.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 203)

a agitação mental... ser incessantes (14/20)

Diga-se de passagem, a bipolaridade é uma doença que ainda não tem cura. Mas a gente não passa a vida doente. A medicação nos controla. E, se uma determinada crise dura 15 dias, um período sem transtornos pode durar anos, embora a agitação mental e a busca pela criatividade possam ser incessantes.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 199)

eu achava que era comigo... (13/20)

Só me lembro que eu tinha alltíssimos níveis de referência - tudo que conversavam perto de mim, no restaurante, na praia, no ônibus, em qualquer lugar, eu achava que era comigo ou a meu respeito. E de que eu me recusava a tomar os remédios, chegava até mesmo a empilhar móveis por trás da porta do quarto. Quando as enfermeiras finalmente conseguiam chegar, eu colocava os comprimidos na boca e depois cuspia.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 195)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Coisas de um bipolar? (12/20)

[...] o projeto da minha vida, uma mistura de criatividade, ilusionismo, oportunidade, coragem, fantasia, capacidade de convencimento e realização, imprevidência, decepção. Coisas de um bipolar? Sei lá.  Eu tomava lítio regularmente e ninguém notou qualquer distúrbio na época. Julgue você mesmo.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 127)

um viva para as diferenças (11/20)

Vai fazer o quê? Tem que trabalhar, não tem? Tem que viver, não tem? Então, bipolar ou não, um viva para as diferenças!

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 81)

eu me achava o máximo... (10/20)

Quando estava deprimido, eu me deixava levar; quando estava eufórico, eu me achava o máximo. Acho que é por isso que alguns bipolares não querem se tratar. O estado de euforia é magnífico. Eu era tomado de um ilusionismo fantástico, julgava que o mundo estava à disposição do meu talento para construir uma coisa espetacular atrás da outra.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 69)

bipolar é ansioso por natureza (9/20)

Outra coisa interessante que o Dr. Ulisses observou foi o seguinte.
[...] a gente precisa saber se você está doente por causa de tudo isso, ou se você está se lembrando de tudo isso porque está doente.
[...]
Quem dera esse remedinho pudesse fazer efeito para todos que costumam perder seu autocontrole. Ele não me coloca grogue, nem abobalhado. e também não elimina as emoções. O que ele dá é equilíbrio. Equilíbrio para ver as coisas com um pouco mais de clareza, escolher as opções aparentemente mais adequadas, controlar as palavras e as atitudes mais ríspidas. As pessoas me acham calmo. Pura aparência. O bipolar é ansioso por natureza.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 64)

litio todo dia e dormir... (8/20)

No meu caso é simples: basta tomar o lítio todos os dias e dormir pelo menos sete horas por noite.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 63)

me colocavam grogue (7/20)

Um belo dia - belo coisa nenhuma, feio pra caramba - eu acordei tão deprimido que desci encostado nos fundos do elevador do prédio onde morava, me contorcendo a cada pesoa que entrava, querendo diminuir de tamanho, completamente apavorado. [...] Quarenta e cinco dias à base de um coquetel de remédios e sonoterapia! [...] Ora os remédios se mostravam demais, me colocavam completamente grogue, falando com a língua presa, ora se mostravam insuficientes, sobrevindo novas crises.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 61-62)

... criatividade à flor da pele (6/20)

... tem pavor da minha doença, pois já me viu várias vezes sem falar coisa com coisa, em grande euforia. Eu achava aquele estado ótimo, com a criatividade à flor da pele e uma sensação de que o mundo é feito de estrelas. Mas, a bem da verdade, jamais criei qualquer coisa nesse estado que fizesse sentido depois de umas boas doses de Haldol. Por outro lado, a depressão é brava.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 60)

...poder de carbonato de lítio... (5/20)

Mal sabia ele que eu era controlado sim, só que a poder de carbonato de lítio. Eu sou psicótico maníaco-depressivo ou, para usar um termo politicamente correto, mais moderno, bipolar. Bipolar é aquele sujeito que tem alterações de humor: uma hora está extremamente deprimido, pode até tentar o suicídio, outra hora fica tão alegre e excitado que perde a noção da realidade. É uma sensação ótima, de extrema criatividade, mas absolutamente inconsequente.

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 59-60)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Tomar lítio todo dia... (4/20)

"Ter que ganhar dinheiro, ter que sustentar a família, ter que manter o emprego, ter que trabalhar onde a carreira é mais importante que o ser humano. Quero fugir desta maldita expressão! Eu quero trabalhar onde me indica a vocação, quero um ambiente de trabalho saudável, mesmo que o dinheiro seja menor. E quero evitar trabalhos que me prejudiquem mentalmente. Tomar lítio todo dia, como se fosse um marca-passo, já é o bastante. Passei a vender para os meus familiares que eles precisam aprender a controlar sua ambição dentro dos limites da nossa saúde. Foi assim que eu passei a pensar, mas demorei anos.."

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 55)

... e joguei a carta de demissão (3/20)

"Acabei mandando o curso de jornalismo para o espaço. Eu já estava trabalhando em propaganda e achando ótimo. Nem ao menos tranquei a matrícula. Fui trabalhar na convicção de que jamais ia precisar daquele diploma - ledo engano. [...] Um belo dia o chefão me chanou e me repreendeu. Achei que ele não tinha razão, coloquei o orgulho na máquina de escrever e joguei a carta de demissão na sua mesa. [...] Eu achava que podia tudo, era um dominador de vinte e poucos anos de idade. E deu até para contrair matrimônio. [...] aceitei o cargo, abrindo mão do diploma de administração, pois naquela cidade não havia esta escola. Impulso infeliz. Demorei quatro anos e meio para conseguir uma transferência... [...] Somos fruto das nossas escolhas? Pelo menos parcialmente, sem dúvida. "

(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 53-55)

... deixaram de ensinar responsabilidade (2/20)

"[...] quando eu queria matar aula, a opção era minha. O colégio não tinha muro - era uma experiência que fizeram no Colégio Estadual de Minas Gerais naquele tempo. Mas o ônus também era meu: os professores não aliviavam na lista de presença nem nas notas. Noutro dia passei por lá e o colégio está murado. Uma pena! Deixaram de ensinar responsabilidade, amor-próprio, autoconfiança, iniciativa e uma série de outros valores."
(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 52)

tem que se esconder para ser aceito... (1/20)

"Como deve se sentir o portador de uma doença incurável, que se trata no psiquiatra - uma categoria médica sobre a qual há tantos preconceitos - e que tem que se esconder  para ser aceito no trabalho? Mas a doença só aparece nas crises, que são de pouca duração em relação à vida toda. E como deve ser um bipolar controlado, ou semi, seja no trabalho, em casa ou com os amigos? "
(DINIZ, Marcelo C. P. Crônicas de um bipolar. Rio de Janeiro; Record, 2010, p. 14)